É preciso pensar a indústria como um organismo vivo, que se alimenta de políticas consistentes, de quadros técnicos competentes, de infra-estruturas robustas e de um ecossistema empresarial aberto ao risco, à experimentação e ao erro construtivo
Num mundo onde a tecnologia já não bate à porta, mas entra directamente nas nossas casas, fábricas e até mesmo bolso, a chamada Indústria 4.0 é mais do que uma expressão moderna, é uma realidade que está a mudar a forma como vivemos e trabalhamos. E Angola, país de potencial imenso e desafios reais, não pode ficar parada à beira da estrada enquanto o comboio da inovação passa.
Este conceito, nascido na Alemanha e baptizado na feira de Hannover em 1943, fala-nos de fábricas inteligentes, máquinas que "conversam" entre si, sensores que medem tudo e dados que, bem tratados, nos ajudam a decidir melhor e mais depressa. É a revolução do digital, da automação, da inteligência artificial e da Internet das Coisas. Em resumo: é a indústria a ganhar cérebro.
Mas e em Angola? Será que estamos prontos para esta mudança?
A resposta não é simples. Temos, de um lado, um parque industrial envelhecido, ainda a respirar com a ajuda de máquinas analógicas e procedimentos manuais. Do outro, uma juventude ansiosa por oportunidades, um mercado sedento por inovação e um discurso político que começa, timidamente, a reconhecer o valor da transição digital.
O Plano de Desenvolvimento Nacional 2023-2027 fala, e bem, da importância de diversificar a economia e de apostar na indústria moderna. A Zona Económica Especial Luanda-Bengo, por exemplo, foi pensada para atrair investimentos e permitir que a tecnologia ganhe raízes no nosso solo. Não é uma solução mágica, mas é um começo.
Além disso, há esforços em curso para formar técnicos e engenheiros, trazer conhecimento de fora e adaptá-lo à nossa realidade. Já se vêem empresas a investir em automação, sobretudo nos sectores do petróleo, energia e até na logística. Não são casos generalizados, mas são exemplos que inspiram.
Olhemos, no entanto, para os nossos vizinhos. O Ruanda já estabeleceu o seu Centro de Excelência em Internet das Coisas, um gesto que, para muitos, seria ousado, não fosse a clara vontade política em tornar o país uma referência tecnológica no continente. O Quénia, por seu turno, aposta fortemente em hubs de inovação e incubadoras digitais, atraindo investimento estrangeiro e fomentando o talento local. São países que, tal como Angola, têm desafios, mas decidiram não esperar.
É preciso pensar a indústria como um organismo vivo, que se alimenta de políticas consistentes, de quadros técnicos competentes, de infra-estruturas robustas e de um ecossistema empresarial aberto ao risco, à experimentação e ao erro construtivo. Porque, no fundo, a Indústria 4.0 não é apenas sobre máquinas ou algoritmos. É sobre pessoas. É sobre dar condições aos angolanos, sejam eles técnicos, operários, engenheiros ou empresários, para que possamos construir um país mais moderno, mais justo e mais competitivo.
Temos os recursos. Temos o capital humano. Temos até alguma experiência acumulada. Falta apenas acreditar que conseguimos e começar a fazer. O tempo não espera. A tecnologia, menos ainda.
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Joaquim Muluta
Joaquim Muluta é engenheiro formado em Engenharia Electrotecnia de Potência pela Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto (FEUAN). Colunista atento e dedicado, partilha a sua visão técnica e crítica sobre temas ligados à energia, infra-estruturas e desenvolvimento tecnológico, contribuindo para o debate público com uma abordagem fundamentada e esclarecedora.
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