Nos últimos anos, o país deu passos consideráveis na adopção da energia solar como parte da sua estratégia de diversificação energética. A construção de infraestruturas como a Central Solar do Biópio, com 188 megawatts, e a de Baía Farta, com 96 megawatts, assinala uma mudança de paradigma na abordagem à produção energética
Angola, país vasto e privilegiado pela geografia, dispõe de uma das maiores taxas de irradiação solar do continente africano. No entanto, este recurso permanece, em grande parte, inexplorado no contexto da matriz energética nacional. Embora a transição para fontes de energia renováveis esteja consagrada nos instrumentos de planeamento do Estado, a aplicação prática das políticas ainda é tímida.
Nos últimos anos, o país deu passos consideráveis na adopção da energia solar como parte da sua estratégia de diversificação energética. A construção de infraestruturas como a Central Solar do Biópio, com 188 megawatts, e a de Baía Farta, com 96 megawatts, assinala uma mudança de paradigma na abordagem à produção energética. A Central de Caraculo, no Namibe, bem como os projectos no Luena e Quilemba, vêm reforçar este movimento. Há ainda a previsão de construção de novas centrais em Malanje, Cabinda, Icolo e Bengo, e outras províncias com elevado potencial de insolação.
Estes investimentos, realizados com o apoio de parceiros internacionais como a TotalEnergies e a Sun Africa, indicam que o sector energético angolano começa a reconhecer o valor estratégico da energia solar não apenas como alternativa técnica, mas como vector de desenvolvimento.
Contudo, o que se observa ainda é uma concentração excessiva em grandes projectos de fornecimento à rede nacional, o que, por si só, não responde de forma efectiva à urgência de acesso universal à energia. A energia solar deve ser compreendida não apenas como fonte de energia limpa, mas como ferramenta de inclusão social e de equilíbrio territorial. As regiões do sul do país, particularmente o Cunene, a Huíla e o Namibe, são zonas com elevados índices de radiação solar, mas onde persistem défices estruturais graves no fornecimento de energia. O paradoxo, portanto, é evidente: o sol brilha onde a luz não chega.
É neste ponto que se impõe uma nova abordagem. É necessário fomentar a implementação de sistemas descentralizados, como micro-redes, painéis fotovoltaicos para uso agrícola, sistemas de bombagem de água e electrificação rural fora da rede.
Do ponto de vista económico, os investimentos em energia solar reduzem a factura com combustíveis fósseis e diminuem a dependência de barragens hidroeléctricas, vulneráveis a alterações climáticas. Do ponto de vista social, promovem a inclusão, reduzem assimetrias regionais e permitem o surgimento de novos pólos de desenvolvimento industrial e agroalimentar. E do ponto de vista ambiental, contribuem para as metas de descarbonização, sem as quais Angola permanecerá fora dos compromissos globais assumidos no Acordo de Paris de 2015.
Apesar do progresso registado, Angola encontra-se ainda na fase embrionária de desenvolvimento da energia solar. A energia solar representa actualmente menos de 4% da produção energética nacional, número que está longe de reflectir o potencial real de um país com mais de 3 mil horas de sol por ano em praticamente todo o seu território. O Plano de Desenvolvimento Nacional 2023-2027 prevê alcançar 9 000 megawatts de energia eléctrica instalados, com a energia renovável a representarem mais de 70%. Esta meta será impossível de atingir sem uma estratégia clara de descentralização, financiamento e capacitação.
Urge, pois, uma mudança de postura. A energia solar deve deixar de ser um discurso de ocasião e passar a ser uma prioridade política transversal. Angola não pode contentar-se com megawatts em conferências, precisa de electricidade nas casas, nos hospitais, nas escolas, nos campos de cultivo. É tempo de deixar de ver o sol como um dado natural e começar a tratá-lo como um activo económico.
Angola tem diante de si uma fonte inesgotável de possibilidades. Cabe-nos a todos, técnicos, comunidades, educadores, empresários e cidadãos, reconhecer o seu valor e continuar a avançar com responsabilidade, solidariedade e visão. Porque cada raio de sol aproveitado é um passo firme na construção de um país mais equilibrado, mais justo e mais luminoso.
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Cláudio Horácio
Cláudio Horácio é colunista e Engenheiro formado em Electrotecnia, com especialidade em Sistemas de Potência, pela Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto (FEUAN). A sua trajectória académica e profissional reflecte um compromisso com o desenvolvimento técnico e o pensamento crítico no sector energético.
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